O Veneno Solitário #20 — © Frederico Mira George

O Veneno Solitário #20

Mucifal
Villa de Collares
Dia 12 de Novembro de 14
Dia 14 de Novembro de 14
{Café «C.», Quarta-feira, «Salão», Sexta-feira}

Vigésimo
{EXTRA TEXTO — II
[liturgia das horas, diálogos — Heinrich Faust vs Emma Bovary] }

Emma Bovary entra no salão de fumo, repara que na poltrona virada à sombra se senta Herr Faust, aproxima-se, senta-se, pergunta:

Emma:
¿Ainda escreve cartas, Herr Faust?
Faust:
Ainda (quase sorri). É difícil quebrar os vícios contraídos na media-idade.
Emma:
… os vícios da média-idade… (faz silêncio e retoma), ¿E respondem-lhe, às cartas, recebe resposta às suas cartas?
Faust:
Recebo cartas, ainda há quem me escreva. Mas não me respondem. Não sei se me entende, Madame, aquele emaranhado de controvérsia, aquele sabor a efeito causado que resulta em frases ora galantes ora ofensivas saindo da pena com a tempestade da caligrafia rápida, papel amarrotado da pressa aquela fúria de não deixar arrefecer a leitura e despejar sem filtros resposta na volta do correio, isso não. Escrevo e devolvem-me assuntos sem relação como se o que tivesse escrito só merecesse a cortesia da banalidade é uma forma de acusar a recepção do envelope. Estamos irremediavelmente perdidos da coragem necessária aos duelos de palavras.
Emma:
Nem sei porque falei nisto. Devia ter-lhe perguntado do seu trabalho, dos seus livros, dos seus estudos, a paixão humana, ou, da magia… Diga-me, Herr Faust, diga-me do seu estudo, afinal é o único mago que conheço.
Faust:
¡Ora! Madame Emma Bovary a seu lado sou menos que um aprendiz. Nunca passei de um intelectual um teórico sentado à escrivaninha no desespero de um romance. Dançar com bruxas apertar a mão a semi-deuses até mesmo recortar a alma em duas em negócios de sangue fizeram de mim mais hábil na Magna Via do que a senhora. Afinal pôs em prática a anima do mundo com a naturalidade e a destra dos grandes depuradores d’oiro. Dizer-lhe dos meus estudos… ¿Mas que novidade pode dar quem procura no pó a quem experimenta na carne?
Emma:
Mais uma vez, não lhe devia ter perguntado nada. Nem sei porque hoje me solto em perguntas invés da discreta conversa do silêncio. Herr Faust, fala com cinismo. Talvez o senhor não conheça bem o meu trabalho. Talvez me tome por bem sucedida naquilo em que apenas, também eu, não passei de estudante. Desculpe-me a intromissão. Voltemos aos cigarros e à conversa de salão. Foi para isso que aqui viemos.
Faust:
Não. Vamos lembre-se. Sou o velho da história o “nosso„ século findou, restam estes diálogos com tabaco. ¡Sou mesmo um teórico! O eterno pretendente a romancista. Madame Bovary acredite eu Heinrich Faust, não sou nem mais nem menos apaixonado que o senhor seu marido. Nem menos entediante.
Emma:
Por carta, Herr Faust. Por carta. ¡Responder-lhe-ei por carta!
Faust:
¿Responde-me?… ¿A quê?
Emma:
Sobre o meu marido, claro. ¿Mas não é dele que afinal deseja saber?

14h00
Frederico ‘W George

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Sobre Frederico Mira George — «Caixa Negra III»

Frederico Mira George: Escritor, Realizador/Autor/Locutor de Rádio, Artista Plástico
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