Narrativa número 19 (Rascunho?)

Narrativa número 19 (Draft?)
Praia das Maçãs
Dia 8 de Outubro de 2013
Dia 10 de Outubro de 2013
Dia 14 de Outubro de 2013
Terça-feira, 11h18m
Quinta-feira, 10h11m
Segunda-feira, 10h36m
{Av. António Garcia de Castro, café}

Sinto uma revolta que não posso expulsar de mim. Não perdoo ninguém por não ter podido aprender música fazendo valer a pena este nascimento. Antes do meu nascimento, a minha família vivia num palacete, com piano e guitarras. Nas estantes guardavam-se pautas preciosas e manuais de ensino musical. Até uma bisavó professora de piano, estava disponível para ensinar a descendência e os amigos dos filhos, netos e a única bisneta que conheceu.

Um ano antes de eu nascer, morreram quase todos, desfizeram-se do piano, rasgaram as pautas e os manuais e a mais preciosa guitarra ficou numa injusta herança para a bisneta que existia. Essa bisneta, que ainda é minha irmã, herdou o que não tinha de herdar simplesmente porque a achavam um gênio. Sempre a acharam um génio. Na boca deles, a minha irmã era linda, talentosa, destra, morena. O palacete foi vendido a eito, os que não morreram recolheram-se num apartamento com olor a jazigo e tudo o que eu podia ter aprendido, lido, as aulas de piano e solfejo de que podia ter auferido com a tal bisavó, tudo se perdeu, num cálculo maquiavélico contra o futuro. Depois de terem despachado os mortos, os bens, o piano, obrigaram-me a nascer, previamente impedido de ser músico e com isso ser feliz.

Aos onze anos hábito na casa do olor a jazigo. Uma das poucas tias-avó que sobraram leva-me a passear pelo Largo do Carmo, em Lisboa. Tudo isto se passa em Lisboa, neste dia do passeio (anos 70), não sou mais do que um espelho negativo de todas as qualidades da minha irmã. Passamos junto ao Custódio Cardoso Pereira. Na montra, mostra-se para venda e entrega imediata, um piano negro, vertical, Mason & Hamlin. Quatrocentos mil escudos*. E a velha tem este dinheiro. A velha tem muito mais do que este dinheiro (viria a ver, depois dela morta, um saco de libras esterlinas em ouro maciço que tinha escondido. Foi esbanjado para pagar as dívidas perdulárias dos restos familiares). Quando lhe peço o piano, não estou a pedir um luxo, um brinquedo, não é um capricho. E ela sabe. E, não fosse eu o destinatário do pianoforte, a encomenda era feita no mesmo dia e até haveria dinheiro para uma luxuosa gratificação aos carregadores. Olha-me com um desprezo caridoso. Nem se dá ao trabalho de uma desculpa, de uma mentira que a escuse à compra. Nem se dá ao trabalho de uma resposta. Basta-me entender a expressão daquelas rugas na testa sob o capachinho. Já devia saber que a minha família só quer o melhor para mim, e assim sendo, nada de sonhos. A Narrativa número 19 (Draft?)
Praia das Maçãs
Dia 8 de Outubro de 2013
Dia 10 de Outubro de 2013
Dia 14 de Outubro de 2013
Terça-feira, 11h18m
Quinta-feira, 10h11m
Segunda-feira, 10h36m
{Av. António Garcia de Castro, café}

Sinto uma revolta que não posso expulsar de mim. Não perdoo ninguém por não ter podido aprender música fazendo valer a pena este nascimento. Antes do meu nascimento, a minha família vivia num palacete, com piano e guitarras. Nas estantes guardavam-se pautas preciosas e manuais de ensino musical. Até uma bisavó professora de piano, estava disponível para ensinar a descendência e os amigos dos filhos, netos e a única bisneta que conheceu.

Um ano antes de eu nascer, morreram quase todos, desfizeram-se do piano, rasgaram as pautas e os manuais e a mais preciosa guitarra ficou numa injusta herança para a bisneta que existia. Essa bisneta, que ainda é minha irmã, herdou o que não tinha de herdar simplesmente porque a achavam um gênio. Sempre a acharam um génio. Na boca deles, a minha irmã era linda, talentosa, destra, morena. O palacete foi vendido a eito, os que não morreram recolheram-se num apartamento com olor a jazigo e tudo o que eu podia ter aprendido, lido, as aulas de piano e solfejo de que podia ter auferido com a tal bisavó, tudo se perdeu, num cálculo maquiavélico contra o futuro. Depois de terem despachado os mortos, os bens, o piano, obrigaram-me a nascer, previamente impedido de ser músico e com isso ser feliz.

Aos onze anos hábito na casa do olor a jazigo. Uma das poucas tias-avó que sobraram leva-me a passear pelo Largo do Carmo, em Lisboa. Tudo isto se passa em Lisboa, neste dia do passeio (anos 70), não sou mais do que um espelho negativo de todas as qualidades da minha irmã. Passamos junto ao Custódio Cardoso Pereira. Na montra, mostra-se para venda e entrega imediata, um piano negro, vertical, Mason & Hamlin. Quatrocentos mil escudos*. E a velha tem este dinheiro. A velha tem muito mais do que este dinheiro (viria a ver, depois dela morta, um saco de libras esterlinas em ouro maciço que tinha escondido. Foi esbanjado para pagar as dívidas perdulárias dos restos familiares). Quando lhe peço o piano, não estou a pedir um luxo, um brinquedo, não é um capricho. E ela sabe. E, não fosse eu o destinatário do pianoforte, a encomenda era feita no mesmo dia e até haveria dinheiro para uma luxuosa gratificação aos carregadores. Olha-me com um desprezo caridoso. Nem se dá ao trabalho de uma desculpa, de uma mentira que a escuse à compra. Nem se dá ao trabalho de uma resposta. Basta-me entender a expressão daquelas rugas na testa sob o capachinho. Já devia saber que a minha família só quer o melhor para mim, e assim sendo, nada de sonhos. A arte está nas mãos da sua irmã! A velha propõe comprar-me um cavaquinho. Por um tempo ainda o esperei na impossibilidade de um pianoforte.

Aos dezasseis anos, os meus dias são preenchidos a deambular pela baixa da capital. Caminho nas ruas com a atitude de uma mulher-a-dias que passa a pano cada milímetro de parede e chão à medida dos passos com que se desloca. Encontrei em Mario de Sá-Carneiro um duplo d’alma que incorporo naquelas ruas invocando o espírito de Pessoa no Martinho d’Arcada, onde passo as tardes a escrever aquilo que será o meu primeiro livro.

Calha passar à porta da tabacaria Caravela e fico colado na secção de instrumentos. Estão dúzias de guitarras penduradas no tecto. Uma parece-me mais bonita que todas as outras. Nove mil escudos*. Peço-a ao vendedor (com isto gastaria a quase totalidade do meu dinheiro). O vendedor diz-me que essa guitarra pode ser bonita mas não é grande coisa e indica-me uma outra. Bem mais cara, onze mil escudos*. Essa não posso comprar. O vendedor, diz que ma vende pelos mesmos nove. Afina-a com delicadeza e deseja-me saúde. Está embrulhada em papel manteiga e guita de cera. Entre o Rossio e a casa do olor a jazigo, o meu pensamento voa por aquelas cordas, faço todos os projectos do mundo. Tenho a certeza de que aquele dia vai mudar a minha vida rumo à felicidade pura dos músicos.

Tenho a certeza de que me vão ensinar a tocar. Peço lições a minha irmã . Nunca chegou a dar-me uma resposta. Procuro aprender sozinho num livro barato comprado numa tabacaria da rua mas não consigo aprender nada, é demasiado complicado para quem nada conhece de um instrumento ou solfejo. Ponho a hipóteses de frequentar uma escola (a Academia dos Amadores de Música, frequentada por meu pai e… Irmã). Ninguém parece ouvir.

Com a guitarra na cama, adormeço a ouvir Paço de Lucia, Al Di Meola e McLaughlin, anjos secretos da minha esperança. Ainda não sei que vinte anos mais tarde vou escrever um evangelho de Jesus totalmente hipnotizado pela guitarra de Pat Metheny e os mais extraordinários acordes que alguma vez ouvi e que nesse momento a música se cumpre em mim.

O único uso musical reservado à minha guitarra é a apropriação sem regras que o minha irmã impõe nas noites de jantar familiar. A família aplaude. Uns meses depois, chego a casa de mais uma flanagem pela baixa e quando entro no quarto vejo a guitarra completamente destruída. O braço deslocado do tronco, as madeiras separadas, as cordas mantêm a pressão e forçam a estrutura danificada a uma curva. Parece uma cítara do futuro. Não se apuram autores da destruição. “Deve ter sido o calor, ela dilatou e rebentou”. Era Janeiro.

*400.000$00 = 1995, 19€
* 9000$00 = 44,89€
* 11000$00 = 54,87€

está nas mãos da sua irmã! A velha propõe comprar-me um cavaquinho. Por um tempo ainda o esperei na impossibilidade de um pianoforte.

Aos dezasseis anos, os meus dias são preenchidos a deambular pela baixa da capital. Caminho nas ruas com a atitude de uma mulher-a-dias que passa a pano cada milímetro de parede e chão à medida dos passos com que se desloca. Encontrei em Mario de Sá-Carneiro um duplo d’alma que incorporo naquelas ruas invocando o espírito de Pessoa no Martinho d’Arcada, onde passo as tardes a escrever aquilo que será o meu primeiro livro.

Calha passar à porta da tabacaria Caravela e fico colado na secção de instrumentos. Estão dúzias de guitarras penduradas no tecto. Uma parece-me mais bonita que todas as outras. Nove mil escudos*. Peço-a ao vendedor (com isto gastaria a quase totalidade do meu dinheiro). O vendedor diz-me que essa guitarra pode ser bonita mas não é grande coisa e indica-me uma outra. Bem mais cara, onze mil escudos*. Essa não posso comprar. O vendedor, diz que ma vende pelos mesmos nove. Afina-a com delicadeza e deseja-me saúde. Está embrulhada em papel manteiga e guita de cera. Entre o Rossio e a casa do olor a jazigo, o meu pensamento voa por aquelas cordas, faço todos os projectos do mundo. Tenho a certeza de que aquele dia vai mudar a minha vida rumo à felicidade pura dos músicos.

Tenho a certeza de que me vão ensinar a tocar. Peço lições a minha irmã . Nunca chegou a dar-me uma resposta. Procuro aprender sozinho num livro barato comprado numa tabacaria da rua mas não consigo aprender nada, é demasiado complicado para quem nada conhece de um instrumento ou solfejo. Ponho a hipóteses de frequentar uma escola (a Academia dos Amadores de Música, frequentada por meu pai e… Irmã). Ninguém parece ouvir.

Com a guitarra na cama, adormeço a ouvir Paço de Lucia, Al Di Meola e McLaughlin, anjos secretos da minha esperança. Ainda não sei que vinte anos mais tarde vou escrever um evangelho de Jesus totalmente hipnotizado pela guitarra de Pat Metheny e os mais extraordinários acordes que alguma vez ouvi e que nesse momento a música se cumpre em mim.

O único uso musical reservado à minha guitarra é a apropriação sem regras que o minha irmã impõe nas noites de jantar familiar. A família aplaude. Uns meses depois, chego a casa de mais uma flanagem pela baixa e quando entro no quarto vejo a guitarra completamente destruída. O braço deslocado do tronco, as madeiras separadas, as cordas mantêm a pressão e forçam a estrutura danificada a uma curva. Parece uma cítara do futuro. Não se apuram autores da destruição. “Deve ter sido o calor, ela dilatou e rebentou”. Era Janeiro.

*400.000$00 = 1995, 19€
* 9000$00 = 44,89€
* 11000$00 = 54,87€

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Sobre Frederico Mira George — «Caixa Negra III»

Frederico Mira George: Escritor, Realizador/Autor/Locutor de Rádio, Artista Plástico
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