Narrativa número 18 (Draft?)

Narrativa número 18 (Draft?)
Praia das Maçãs
Dia 4 de Outubro de 2013
Dia 5 de Outubro de 2013
Dia 6 de Outubro de 2013
Sexta-feira, 09h59m
Sábado, 12h50m
Domingo, 10h26m
{Av. António Garcia de Castro, café}

Tem desasseais anos feitos há um mês. Alessandro nasceu em Livorno no dia 21 de Janeiro. Data e localidade onde em 1921, sob a inspiração de Bordiga e Gramsci, o partido tinha sido fundado. Estamos em Roma no ano de 1986. O PCI toma consciência do fracasso do “compromisso histórico” de Berlinguer. Occetto acaba de assumir a secretaria-geral e Alessandro é militante na Federação Juvenil Comunista Italiana. É filho de uma linhagem de “fieis” partidários da “linha justa” do PCUS. Pai e Mãe, inimigos internos, determinados e irredutíveis opositores da direcção eurocomunista. Alessandro toma a oposição à sua família e ao partido, sente-se atraído pela ideia de um Partido Social Democrata. Não esconde simpatias por Mitterrand, Soares, Willy Brandt e, principalmente, Olof Palme, assassinado há um mês em Estocolmo.

A dissidência juvenil levou-o a Roma. Contudo, por não ser um “tradicional” militante e por não alinhar com Occhetto não é admitido como funcionário. Milita na Secção de Informação e Propaganda e escreve para o órgão central da Federação. É um militante que todos se esforçam por ignorar. Deixou a escola e dedicou-se totalmente à militância política. Está todos os dias na sede da Juventude. Fala com uma propriedade inaudita para a sua idade e se alguns, poucos, o admiram por isso, os outros detestam-no.

Hoje sente-se ainda mais gordo (é um adolescente obeso, humilhado pela sua condição física). Acabou de receber da família a pequena renda mensal, única fonte de subsistência que possui. Desse dinheiro mísero, tira uma fatia substancial para ir ao teatro. Vai ao teatro todos os dias. Outro pedaço do dinheiro, reserva à compra de qualquer objecto que o faça sonhar. Ama a sua máquina de escrever mais do que a tudo na vida. Habitualmente correria para uma livraria nas redondezas da Piazza Minerva. Chega mesmo a caminhar nesse sentido, mas há já algum tempo que uma vertigem lhe toma o corpo, uma loucura que lhe arrasa o discernimento e a calma.

Sempre que Alessandro se desloca à sede do partido na Via delle Botteghe Oscure, é abordado por uma miríade de prostitutas que o tentam convencer. Esse fenómeno é-lhe muito estranho. Todos o tratam como alguém repulsivo, ou pela obesidade ou por uma certa androginia. É muitas vezes confundido com uma rapariga gorda. Mal tem barba e a obesidade confunde as formas masculinas. Nunca se aproximou de uma mulher, é coisa que Alessandro julga reservado aos outros. Mas aquelas raparigas… aquelas tratam-no como homem. Nem parecem vê-lo como adolescente.Tratam-no por “você”. São delicadas e até fazem alguns elogios. Para aquele rapaz que até hoje só pôde contar com a inteligência e a leitura, este fenómeno é muito mais significativo do que putas a engatar clientes na Via Sacra do trânsito pedestre da capital. Alessandro é cortês com elas, fixa-lhes o rosto, simpatiza com elas. Pouco importa a falta de verdade das putas romanas. Afinal o mundo está cheia de putas romanas. A Itália está prenhe de interesseiros romanos tentando engatar clientes. Até no partido, especialmente no partido. Basta chegar à porta sede e ver a gana com que as beatas e beatos de Occhetto tentam impingir o L’Unità. Meretrizes romanas por todo o lado. E a verdade… a verdade é a falta de um toque afectuoso, físico e sexual.

Alessandro pára junto a uma montra fingindo observar os artigos. É uma loja de malas e sapatos. Está a tentar pôr as ideias em ordem. Tenta ficar frio e racional. Não cometer um erro estúpido. Iniciar a vida sexual com uma prostituta é qualquer coisa fora do seu tempo, da sua geração. Ainda que entre os militantes do partido, especialmente entre os Stalinistas seja prática continuada. Desejava tanto que fosse de maneira diferente. Mas Alessandro sabe que não tem outros recursos, que não contacta com mulheres de forma a que as coisas fossem diferentes. Neste momento, Alessandro adivinha uma inteira vida de solidão amorosa. Entre o momento em que está parado frente à montra dos sapatos e o momento em que se desloca a passos rápidos no Corso Vittorio Emanuele nas cercanias do hotel Tiziano, a mente de Alessandro parou. Não foi uma decisão, alguma coisa estalou no cérebro que o fez voar aqueles quarteirões. O coração do rapaz bate com tal aceleração que nem sente cansaço. Não está ofegante, vê ao longe com uma nitidez de falcão. Tem o corpo ébrio de adrenalina.

Está num quarto mínimo do Tiziano. Com ele uma prostituta de corpo pequeno e muito branco, cabelos castanhos, oleosos. Toda ela banal. Não é bem. Até com uma prostituta, Alessandro parece ter de compensar a imagem de repugnância que sente de si mesmo. A mulher, pouco mais velha do que ele, tem a boca muito torta, tão torta que fala com dificuldade. Ele nem a percebe, adivinha-a por aproximação. 10000£… Dez mil liras… Coisa estranha…Ia estar pela primeira vez com uma mulher por dez mil liras… Mais barato que um livro, ou rolo de tinta para a máquina de escrever.

Esta calmo com a moça. O defeito que tem na boca equivale à sua obesidade. São ambos repugnantes, estão quites. Aproxima-se dela já com o coração sereno. As endorfinas substituíram a adrenalina no sangue. Está naturalmente dopado. Drogado da morfina cerebral dos mamíferos. Deita-se na cama debaixo dela. Não quer ter de fazer nada. Tem o caralho erecto a funcionar separado da sua vontade. A miúda enfia-o dentro iniciando uns movimentos rotineiros, desinteressados, moles. Está a dizer umas coisas, mas Alessandro não lhe percebe um vocábulo. Deixa de a tentar ouvir. Não sente qualquer estimulação agradável no pénis. O único prazer real de que está consciente é o do toque dos dedos no peito dela, no tronco. Nunca imaginara que a pele de outra pessoa fosse tão macia, tão estranhamente confortável. Não entende como se mantém erecto, continua sem sentir nada no coito. Ela vai repetindo aquele vai-vem sensaborão, achando estranho que ele ainda não se tenha vindo. Da parte dele, repara na luz amarelada do tecto, nos lençóis bege, nos cortinados de chita com dourados e, principalmente, numa reprodução barata de “Baco e Adriadne” de Tiziano..

Alessandro está descer as escadas do hotel em direcção à rua. A “boca torta” ficou no quarto a vestir-se. Sente um sensibilidade estranha no pênis. A “corrida” acabou ainda ele não se tinha vindo. Nem próximo esteve. Nem isso o incomodava. O importante, é que ele sabe da mudança ocorrida. Não irá contar a ninguém, nem aos “jarrões” do partido que passam as tardes na sede a contar proezas com mulheres. Já se sente vingado dos que o remetiam à impossibilidade eterna do namoro. Afinal, estamos em Roma. Por apenas dez mil liras, qualquer homem, por mais repelente ou belo, inteligente ou manso, se pode transformar por meia-hora num Rómulo… ou Remo, saboreando as tetas das Grande Loba!

Edmundo Lúcio

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Sobre Frederico Mira George — «Caixa Negra III»

Frederico Mira George: Escritor, Realizador/Autor/Locutor de Rádio, Artista Plástico
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