Narrativa número 17 (Draft?)

Narrativa número 17 (Draft?)
Praia das Maçãs
Dia 1 de Outubro de 2013
Dia 2 de Outubro de 2013
Terça-feira, 11h13m
Quarta-feira, 10h59m
{Av. António Garcia de Castro, café}

Sentes o corpo quente, estás com febre e tens arrepios de frio. Os branco dos olhos está em sangue. Um líquido de visco derramado, misturado, na cor amêndoa castanha da íris, rouba-te a transparência vítrea. E a pupila, branca, totalmente branca. Um ponto branco no centro do olho. Dir-se-ão cegos. Mas não. Pelo contrário, tens a visão mais apurada do que nunca. Inclusivamente, estás capaz de ver através dos objectos, através das paredes; quando olhas o tecto, enxergas os vizinhos de baixo, observas os seus corpos na vertical, como se fosses um insecto rastejante com visão humana.

Não tens forças para um banho. Sentes que devias ir, acalmaria o surto de febre e talvez a água matasse a sede vidente. No gaveto da sala, nem quando baixas as pálpebras na tentativa de interromper a visão trespassante, desce a benção de uma escuridão que te repousasse O horroroso que tens dentro.

Estás descalço e o tacto da pele na cerâmica fria estabiliza a febre. Tal como os olhos estão incapazes de cegar, os ouvidos não ensurdecem, captas ruídos mínimos como gritos gigantes. Neste preciso momento és capaz de escutar com perfeição a conversação das bactérias, a passada rápida das partículas em fuga. Repara, consegues audir a morte das células microscópicas do cérebro. Quase desfaleces com as suplicas celulares no estertor fúnebre da tua cabeça interna.

Vou contar até 10 e ao décimo sino, começarás a ouvir um poema. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove… De…z:

À distância de um olhar curto,
Tu, pequeníssimo animal de prosas,
Verás um navio transumante regressando.
Ansiarás os marinheiros que adivinhas
Na tripulação. Ficarás excitado com
Os mastros vermelhos das bandeiras
E, como um suicida que antes do derradeiro
Suspiro vê o paraíso perto, correrás
Para o mar, ardendo nas asas. Já
Vais morto, e ainda sentes os dentes
Comendo a língua. Mudo És herdeiro
dos espíritos que tens no peito.

Estás tão bonito… Se Edna te pudesse ver agora. Não foi o poema que te iluminou. Já estavas bonito antes da audição. O que o poema trouxe, foi a esperança de retornar ao contacto com o teu passado poético. E se as vozes que escreviam tivessem voltado? Tal fenómeno explicaria a transmutação do corpo, as alterações de cor. Estás tão bonito, Erasmo. Sentes uma felicidade subir pela cervical em direcção à base do crânio, o perespirito lança o seu fluido em todas as direcções da matéria para que a transfiguração não cesse e voltes a contactar os condutores de versos. Vê-me agora, Edna! A febre retoma a energia do transe. Deslizas até à varanda do mar. E lá está. O navio. Os mastros vermelhos das bandeiras. Os marinheiros…

Edmundo Lúcio

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Sobre Frederico Mira George/Literatura e Rádio

Frederico Mira George: Escritor, Realizador/Autor/Locutor de Rádio, Artista Plástico
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