Narrativa número 16 (Draft?)

Narrativa número 16 (Draft?)*
Praia das Maçãs
Dia 29 de Setembro de 2013
Domingo, 11h38m
{Av. António Garcia de Castro –
Dia de Eleições Autárquicas}

A jovem actriz constituía uma preocupação para os pais. E com razão. Então aquela menina, prodígio de leitura e erudição, amante de ópera, ainda os dentes lhe não tinham nascido já queria entregar-se à mais velha profissão do mundo?Meu Deus! O Teatro começou muitíssimo tempo antes da venda do corpo. Aliás, para que alguém se prostitua tem de saber representar. Para o entendimento da altura, puta e mulher do teatro era sinónimo. E os pais da miúda não eram nenhuns tansos. Ele, cantor no coro do grande teatro operático da cidade, Lisboa, anos 60; Ela, diplomada em piano e canto pelo Conservatório Nacional.

Por esses tempos, para ingressar no Conservatório, apenas se exigia a quarta classe. A miúda tinha acabado o liceu, notas brilhantes a literatura e línguas, era culta como um pedaço de cortiça com milhares de anos. Havia ela de se desgraçar e desperdiçar todo o seu estudo num antro que admitia analfabetos e meretrizes com ambições de cabaré e, com sorte, arranjar um matrono rico que lhe pusesse casa? Não, o Senhor e Senhora, Lapa, não podiam permitir a meretrização da pequena.

Enfiaram-na na faculdade de letras (mau por mau, antes isso), e com dedicação resolveram submeter a garota a uma modernice. Um medico esquisito, abdicara do estetoscópio para se dedicar à psicologia e, dentro disso, protagonizava a aplicação portuguesa das técnicas estrangeiras de “orientação profissional”. Talvez o homem lhe desse a volta, a convencesse de uma vocação superior, de um desígnio oculto nela que a afastasse da hecatombe libertina. Por alturas de Setembro, foi-lhe marcada consulta com o dr. António Martinho do Rosário. E a pequena foi. Lá num esconso do cérebro, talvez também desejasse ser elevada daquela compulsão teatreira. Talvez a garotita tivesse algum desejo comum aos pais de se livrar daquela espinha cravada no coração.

Esperou umas quantas horas na sala de atendimento do novíssimo Instituto de Orientação Profissional do Ministério da Educação Nacional. Sem aviso um homem enorme, cheio de dentes, óculos pesados, roupas desajustadas ao tamanho, mas revelando uma elegância francesa, que por moda, a Portugal, chegaria bem mais tarde.

Anúncio da secretária: “Senhora Fernanda Lapa, vai ser recebida pelo dr. Martinho do Rosário”. E entrou, branca, gélida, pálida, sufocada de palavras, e em simultâneo, uma ânsia desmedida de falar e se anunciar. Tinha-o visto. Era ele. Como podia ser. Então, é verdade. Deus escreve direito por linhas tortas. Ou é Deus torto nas esperanças lineares com que os desígnios são escritos. TINHA-O VISTO E ERA ELE! O dr. António Martinho do Rosário ERA ele!

Alguns segundos de paralisia emocional, alguns segundos de hesitação e sufoco. “Falo ou não falo? – “Digo… não digo?” – “Digo!”:

– O senhor dr. é quem eu sei que é, não é?
– Ora essa, então pergunta-me se sou o que diz que sabe que sou? Então se sabe quem sou porque me pergunta se sou?
– Não estava à espera. Vinha aos testes, não conhecia este seu nome… Quer dizer, não conhecia “o seu nome”. Vejo agora que o outro não é o seu nome e pensei que fosse, apesar do som dramático que de alguma maneira deixava adivinhar um pseudónimo…
– Aí sim? Mas e então a menina vem fazer os testes… quer fazer os testes…
– Ja não sei bem. Sim. Quero. Na verdade não sei bem no que isto consiste e agora que sei quem o dr. É?…
– Então vamos fazer. Não temos nada a perder, não é assim? Mas já agora, conhece as minhas peças? Já as viu representar?
– Pois claro que já. Vi-as representar, li as que me chegaram às mãos. Sabe, o meu avô tem uma biblioteca estranha. Cheia, cheia de tudo, do muito bom ao excelente, do péssimo ao intragável. Foi ele que me deu a ler os “americanos”, o teatro… E escondido no meio daqueles livros (sabe ele dava-me os livros às escondidas dos meus pais. São muito… cautelosos, os meus pais. Daqueles que guardam os Eças e os Zolás à chave na vitrina)….
– Com que então “fui parar-lhe” aos olhos pela mão de um avô que corrompe a neta com leituras “perversas”…. [riu com aquele nervoso apaixonado que lhe era tão característico].
– E não só, no teatro, nas idas ao teatro…
– Sim, sim. Já tinha dito que “me viu representado”.

Enquanto a conversa decorria, os testes se faziam e os resultados se mostravam desconexos, flutuantes, paradoxais, no meio dos questionários, lá vinha o teatro. E o teatro e o teatro. Fernanda estava encantada, linda, esperançosa. A jovem actriz, que era a grande preocupação dos seus pais, ali estava, entregue ao oráculo, supostamente sujeita aos desígnios das novas ciências da mente. Aparentemente entregue aos tentáculos da psicologia certeira, quase mística. Na verdade entregue ao deleite de ter encontrado aquele a quem 50 anos depois chamaria “O” Amigo!

O veredicto empurrava-a para a Arte. Podia até não ser o teatro, mas era o teatro. Como o Senhor e a Senhora Lapa iriam ficar arrependidos por ter cedido a estas modernizes da psicologia…

Fernanda Narrativa número 16 (Draft?)*
Praia das Maçãs
Dia 29 de Setembro de 2013
Domingo, 11h38m
{Av. António Garcia de Castro –
Dia de Eleições Autárquicas}

A jovem actriz constituía uma preocupação para os pais. E com razão. Então aquela menina, prodígio de leitura e erudição, amante de ópera, ainda os dentes lhe não tinham nascido já queria entregar-se à mais velha profissão do mundo?Meu Deus! O Teatro começou muitíssimo tempo antes da venda do corpo. Aliás, para que alguém se prostitua tem de saber representar. Para o entendimento da altura, puta e mulher do teatro era sinónimo. E os pais da miúda não eram nenhuns tansos. Ele, cantor no coro do grande teatro operático da cidade, Lisboa, anos 60; Ela, diplomada em piano e canto pelo Conservatório Nacional.

Por esses tempos, para ingressar no Conservatório, apenas se exigia a quarta classe. A miúda tinha acabado o liceu, notas brilhantes a literatura e línguas, era culta como um pedaço de cortiça com milhares de anos. Havia ela de se desgraçar e desperdiçar todo o seu estudo num antro que admitia analfabetos e meretrizes com ambições de cabaré e, com sorte, arranjar um matrono rico que lhe pusesse casa? Não, o Senhor e Senhora, Lapa, não podiam permitir a meretrização da pequena.

Enfiaram-na na faculdade de letras (mau por mau, antes isso), e com dedicação resolveram submeter a garota a uma modernice. Um medico esquisito, abdicara do estetoscópio para se dedicar à psicologia e, dentro disso, protagonizava a aplicação portuguesa das técnicas estrangeiras de “orientação profissional”. Talvez o homem lhe desse a volta, a convencesse de uma vocação superior, de um desígnio oculto nela que a afastasse da hecatombe libertina. Por alturas de Setembro, foi-lhe marcada consulta com o dr. António Martinho do Rosário. E a pequena foi. Lá num esconso do cérebro, talvez também desejasse ser elevada daquela compulsão teatreira. Talvez a garotita tivesse algum desejo comum aos pais de se livrar daquela espinha cravada no coração.

Esperou umas quantas horas na sala de atendimento do novíssimo Instituto de Orientação Profissional do Ministério da Educação Nacional. Sem aviso um homem enorme, cheio de dentes, óculos pesados, roupas desajustadas ao tamanho, mas revelando uma elegância francesa, que por moda, a Portugal, chegaria bem mais tarde.

Anúncio da secretária: “Senhora Fernanda Lapa, vai ser recebida pelo dr. Martinho do Rosário”. E entrou, branca, gélida, pálida, sufocada de palavras, e em simultâneo, uma ânsia desmedida de falar e se anunciar. Tinha-o visto. Era ele. Como podia ser. Então, é verdade. Deus escreve direito por linhas tortas. Ou é Deus torto nas esperanças lineares com que os desígnios são escritos. TINHA-O VISTO E ERA ELE! O dr. António Martinho do Rosário ERA ele!

Alguns segundos de paralisia emocional, alguns segundos de hesitação e sufoco. “Falo ou não falo? – “Digo… não digo?” – “Digo!”:

– O senhor dr. é quem eu sei que é, não é?
– Ora essa, então pergunta-me se sou o que diz que sabe que sou? Então se sabe quem sou porque me pergunta se sou?
– Não estava à espera. Vinha aos testes, não conhecia este seu nome… Quer dizer, não conhecia “o seu nome”. Vejo agora que o outro não é o seu nome e pensei que fosse, apesar do som dramático que de alguma maneira deixava adivinhar um pseudónimo…
– Aí sim? Mas e então a menina vem fazer os testes… quer fazer os testes…
– Ja não sei bem. Sim. Quero. Na verdade não sei bem no que isto consiste e agora que sei quem o dr. É?…
– Então vamos fazer. Não temos nada a perder, não é assim? Mas já agora, conhece as minhas peças? Já as viu representar?
– Pois claro que já. Vi-as representar, li as que me chegaram às mãos. Sabe, o meu avô tem uma biblioteca estranha. Cheia, cheia de tudo, do muito bom ao excelente, do péssimo ao intragável. Foi ele que me deu a ler os “americanos”, o teatro… E escondido no meio daqueles livros (sabe ele dava-me os livros às escondidas dos meus pais. São muito… cautelosos, os meus pais. Daqueles que guardam os Eças e os Zolás à chave na vitrina)….
– Com que então “fui parar-lhe” aos olhos pela mão de um avô que corrompe a neta com leituras “perversas”…. [riu com aquele nervoso apaixonado que lhe era tão característico].
– E não só, no teatro, nas idas ao teatro…
– Sim, sim. Já tinha dito que “me viu representado”.

Enquanto a conversa decorria, os testes se faziam e os resultados se mostravam desconexos, flutuantes, paradoxais, no meio dos questionários, lá vinha o teatro. E o teatro e o teatro. Fernanda estava encantada, linda, esperançosa. A jovem actriz, que era a grande preocupação dos seus pais, ali estava, entregue ao oráculo, supostamente sujeita aos desígnios das novas ciências da mente. Aparentemente entregue aos tentáculos da psicologia certeira, quase mística. Na verdade entregue ao deleite de ter encontrado aquele a quem 50 anos depois chamaria “O” Amigo!

O veredicto empurrava-a para a Arte. Podia até não ser o teatro, mas era o teatro. Como o Senhor e a Senhora Lapa iriam ficar arrependidos por ter cedido a estas modernizes da psicologia…

Fernanda saiu da sala, Ele acompanhou-a à porta. Tinham de despedir-se e a partir dali, tinham de estar sempre juntos. Até que a morteiros os separe. Ironicamente (quão irónica a vida de Fernanda ia ser, até na tragédia. Especialmente na tragédia), foi o que aconteceu. Num vulgar dia 29, em Agosto de 1980, no desfecho de uma doença que Lhe corroeu o sangue, morria o dramaturgo, poeta e brevemente novelista, Bernardo Santareno.

*NOTA
Esta narrativa é baseada em factos reais contados pela própria actriz Fernanda Lapa. Contudo, trata-se de uma obra de ficção, em que a narração, apesar de baseada em factos reais, sofreram alterações puramente ficcionadas. Nomeadamente os diálogos.

Edmundo Lúcio
saiu da sala, Ele acompanhou-a à porta. Tinham de despedir-se e a partir dali, tinham de estar sempre juntos. Até que a morteiros separe. Ironicamente (quão irónica a vida de Fernanda ia ser, até na tragédia. Especialmente na tragédia), foi o que aconteceu. Num vulgar dia 29, em Agosto de 1980, no desfecho de uma doença que Lhe corroeu o sangue, morria o dramaturgo, poeta e brevemente novelista, Bernardo Santareno.

*NOTA
Esta narrativa é baseada em factos reais contados pela própria actriz Fernanda Lapa. Contudo, trata-se de uma obra de ficção, em que a narração, apesar de baseada em factos reais, sofreram alterações puramente ficcionadas. Nomeadamente os diálogos.

Edmundo Lúcio

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Sobre Frederico Mira George — «Arte»

Frederico Mira George: Escritor, Artista Plástico, Podcaster
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