Narrativa número 15 (Draft?)

Narrativa número 15 (Draft?)
Praia das Maçãs
Dia 24 de Setembro de 2013
Dia 25 de Setembro de 2013
Dia 28 de Setembro de 2103
Terça-feira, 12h05m
Quarta-feira, 11h41
Sábado, 11h22m
{Av. António Garcia de Castro, café}

Ainda estavam na cama quando começou a chover. “Terminou o verão?”. Os cães uivaram numa misteriosa sintonia por toda a aldeia, respondendo entre eles numa espécie de cante-suão. Maravilhoso sortilégio dos animais! “Precisávamos tanto de uma trovoada”. As marés tem recuado muito nos últimos dias. O equinócio apressou o fim dos dias. Os dias precipitaram-se ao fundo da noite, sem paragens, sem as pausas aveludadas d’Agosto. Volta a ser difícil sair da cama. O dossel das poeiras de luz, é o derradeiro escudo de protecção do tédio agressivo de que os meses são feitos.

Erasmo levantou-se primeiro. Movido pelo dever de engolir as drogas matinais, garante do conforto espiritual e físico que tanto acha necessitar. Sente-se inválido, pensa o seu corpo como um acúleo num braço de roseira. As primeiras drogas do dia permitem-lhe algum sossego mentiroso, perverso. Está tão habituado a esta subordinação medicamentosa que ao engolir as pastilhas já nem sente a expansão dorida da garganta e a agonia acida no estômago.

Quando Edna chegou à sala, ainda vestida do verde-algodão, sentiu frio e desconforto, o ar húmido da noite não evaporara sob mínimos raios de Sol trespassados da janela. “Terminou o Verão?”. Erasmo na cozinha ouviu Edna, sem responder, refugiou-se na tarefa de sintonizar o rádio. Naquele momento, a estática hertziana isolava-o do resto da casa, das perguntas Edna, das súplicas com que os espíritos solitários o invadiam desde a aparição das dores na nuca.

Dois dias depois

Edna não dormira toda a noite com pesadelos e fantasmas de família a explodir-lhe o cérebro. Tinha-se levantado às 5h07m, febril e angustiada. Foi para o escritório, arrumar gavetas. Na primeira, postais coleccionados durante vinte anos; na segunda fotografias deles (algumas viagens, as férias de 1989, as casas onde tinham vivido, antigos móveis onde tinham passado momentos intensos do casamento); na terceira utensílios de escritório; na quarta os diários de Erasmo. Que horrível tentação ler aquelas páginas e saber, por fim, que pensamentos Erasmo tinha produzido sobre a vida. Não foi capaz. Tinha demasiado medo do que pudesse encontrar, juntamente com o velho escrúpulo Romano que, mesmo depois de abandonar a igreja, não a tinha aliviado da culpa eterna. Achava-se no direito de os ler. Afinal era ela a protagonista daquelas páginas – Erasmo tinha-o confessado, num jantar em os diários tinham vindo à conversa -. Não sentia nenhum escrúpulo ético, nada. Sentia medo de desfazer a compostura superior que praticava desde miúda. Sentia medo da culpa divina, medo do Cordeiro de Deus e da sua máxima culpa por todos os pecados do mundo. E se a coragem é o reduto infame que o medo causa, não tinha sudoeste segurança no solidez do seu esqueleto mental. Fechou as gavetas sem tão-pouco as arrumar, fez-se dia, reclinou-se no cadeirão de cabedal fitando a trovoada pela janela. Absorta nos relâmpagos direitos ao mar.

No quarto, Erasmo dormia e sonhava. Tinha o falo erecto do sonho. O rosto tenso, como se uma quase-dor o estivesse a iluminar de prazer. Agitado, dava voltas na cama, agarrado ao travesseiro sedoso, pressionando o sexo contra o almofadão ao mesmo tempo que soltava pequenos roncos descontrolados. No escritório, Edna ignorava o marido naquele êxtase. Contudo, uma lucidez sobrenatural prendia-a à poltrona impedindo que voltasse ao leito. E era isso que desejava. Aninhar-se nos braços dele, voltar a aquecer e esquecer aquela urgência de ler os diários dele.

Às 9h45m, Erasmo levantou-se, mal acordado arrastou-se em robe até à sala, procurou os cigarros, acendeu o primeiro e constatou ausência de Edna na divisão com alívio. Não teria de falar. Depois… Cozinha, drogas, tosse dos cigarros, o rádio.

Edmundo Lúcio

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Sobre Frederico Mira George/Literatura e Rádio

Frederico Mira George: Escritor, Realizador/Autor/Locutor de Rádio, Artista Plástico
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