Narrativa número 14 (Draft?)

Narrativa número 14 (Draft?)
Praia das Maçãs
Dia 23 de Setembro de 2013
Segunda-feira, 10h55m
{Av. António Garcia de Castro, café}

Marrocos. Nobre povo. Nação valente e imortal. Dois Opel, oito passageiros em colapso atravessando as Gargantas do Atlas. Vão em silêncio, quatro a quatro, a caminho de Ouarzazate, a última grande cidade europeizada. À frente as dunas de pedras rolantes do Saara. Quando pararem em Ouarzazate, hão-de alugar dois luxuosos quartos duplos e um de casal. O hotel Riad Dar Rita foi construído sobre as ruínas de um castelo de retaguarda. Se um dia os portugueses passassem Marraquexe em guerra, os muçulmanos refugiar-se-iam ali. Com a ocupação muçulmana de Ouarzazate, começou a repressão aos berberes, os Homens-bons do Ocidente sauári.

Os oito vão instalar-se nos quartos. Vão discutir pelo quarto de casal. Entre eles há 3 casais e dois solteiros. Um homem e uma mulher solteiros. Ela sente repulsa pelo homem, ele não percebe. É por isso que irão discutir. Decidem usar o quarto de casal rotativamente. A primeira noite será tensa e escura. Vão dormir dois a dois, separados por sexo. Salva a noite a planeada partida para Taourirt na manhã seguinte. Querem chegar à fronteira, ao ligar onde deserto é soberano, onde não há estado, reino, bandeira. E pela manhã, no silêncio ensurdecedor com que se não falam, entrarão nos Opel, a conduzir irão os solteiros. São os donos dos carros. A viagem irá levar três horas, no Opel branco, ouve-se Monteverdi. Eles pensam que a vidência do deserto os vai encantar de tal modo que a paz voltará ao convívio deles e que o amor que pensavam sentir uns pelos outros regressará em esplendor. Mas eles não se amam. Existe em cada um deles um ódio cínico, um ciúme possante acompanhado de incompetências sexuais, distorções sérias, que aqueles corpos não sabem assumir. Oito monstros unidos pela impotência.

A sete quilómetros de Taorirt, o condutor do Opel prateado irá adormecer ao volante. O carro vai despistar-se, contorcer-se em elipses e batidas nos marcos geodésicos. Os quatro passageiros gritam e dois deles dão as mãos. O deserto está muito perto, a estrada de terra batida ergue-se em poeiras de nevoeiro, ficam cegos, parados, em contra-mão. À mercê de Neith. O Opel branco demora-se ao som de Monteverdi e chegará onze minutos depois. Enquanto o nevoeiro de pó-de-chão se dissipa, os quatro viajantes do Opel prateado ficarão imóveis, estarrecidos, paralelos ao Saara rompendo pela primeira vez o silêncio com preces desconhecidas dos deuses berberes, do próximo Alá, desconhecidas até de Jeová, o Janus ocidental da criação.

Quando o Opel branco chegar, os restantes quatro colegas, não irão sentir qualquer apelo de comoção. Chegarão, constatarão o acidente como algo banal numa viagem, apenas reduzirão a velocidade do automóvel e, contornando o sinistro, seguirão satisfeitos rumo às dunas de Amon.

À noite todos estarão de volta ao Riad Ad Rita. Na sala régia, uma mesa gloriosa de preciosidades estará posta para eles, únicos hóspedes do hotel. Não faltarão as bailarinas árabes, turcos de sabre à cinta, e elegantes falantes de francês para servir as tagine de carneiro com chá de túlipa. Essa ceia vai marcar o destino desses oito amantes desvalidos da paixão. Serão refinadamente delicados uns com os outros. Sabem que nada lhes resta em comum, já nem o ódio ou desejo pisado dos seus secos sexos inutilizados. Ali acabará a viagem ao Reino dos Odores. O regresso será tão cordial que haverá até espaço para risos e abraços de despedida.

Quando esta viagem se realizar, os oitos amantes saberão o que os espera. Lerão este mapa de palavras proféticas reconhecendo a sua irrefutabilidade. E decidirão ir. Mesmo assim. Afinal, que lugar pode ser mais auspicioso para a humilhação da carne e para expiação última da amizade? Marrocos é o que sempre foi para os portugueses: a pátria do eterno defunto nebuloso.

Edmundo A Lucio

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Sobre Frederico Mira George — «Caixa Negra III»

Frederico Mira George: Escritor, Realizador/Autor/Locutor de Rádio, Artista Plástico
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