Narrativa número 13 (Draft)

Narrativa número 13 (Draft)*
Praia das Maçãs
Dia 22 de Setembro de 2013
Domingo, 10h24m
{Av. António Garcia de Castro, café}

Carta de El-Rei Dom Carlos I de Portugal a
Sua Excelência o Conselheiro da Coroa, Comandante José Joaquim de Almeida.
Assunto: “A África dos Reis”

Paço Real de Vila a Viçosa
Primeiro de Dezembro deste ano da Graça de Nosso Senhor Jesus o Cristo de mil oitocentos e oitenta e oito
Exmo. Senhor Conselheiro da Coroa, Comandante José Joaquim de Almeida.
Etiqueta: SIGILO DE ESTADO, ASSUNTO RÉGIO

Meu “Leal Conselheiro”, *

Sendo esta carta privada, meu bom Comandante, escuso-me à fala régia, ao plural que os documentos do estado aplicam à voz do Rei. Sou neste momento o mais solitário dos homens, e se os termos majestáticos atribuídos à expressão do monarca se faz plural porque o Rei não está só, agindo pela vontade e inspiração de Deus… Quão ridículas são estas formalidades depois do nosso Pai, Senhor Dom Pedro, ter levado ao altar da Coroa, a Rainha Dona
Maria e com ela o absoluto e inspirado Rei ter passado ao homem comum que era no principio da monarquia. Além de ter por certa a honra de Me dirigir a um amigo. Tão rara coisa já. Portugal tornou-se um ninho de víboras pedantes. Nisso, quanta razão cabe a esses jovens jacobinos que aspiram à República.

Não me tome por neurasténico, nem tão pouco triste. Sou o que Sou, Faço o que tenho de Fazer!

Convoco-o para a presença neste Paço mal receba esta carta. Não precisa tão-pouco de responder. Basta que venha e acompanhado. Ao mesmo tempo que o convoco, chamo ao trono, dois outros homens de coração ornado de beleza e límpida honra. Os três deverão estar frente a mim e ao Conde de Souza e Faro, tio de um dos que chamo a mim, e deverão vir, preparados para parir. O Destino dir-lhes-ei em presença. Mas afirmo, não houve em meu reinado nada de tão arriscado. As possibilidades de sucesso são nulas. Dizem que a coragem nasce do medo e da obrigação d’o enfrentar, seja, menos do que isso, à pátria não serve.

À minha solitária presença (estou a ser injusto para com Souza e Faro, para a Rainha e para os meus dedicados filhos, mas a solidão existe, mesmo entre multidões fraternas), chamei-o a si, “Leal Conselheiro”, ao seu bravo e dedicado discípulo, Dom António Diniz de Ayalla (sobrinho por casamento do Conde Souza e Faro) e ao único Homem digno desse nome que nos resta na Justiça , o Delegado do Procurador da Coroa, Senhor Trindade Coelho.

Nesta comissão diplomática que vos incubo, vós, Comandante, sereis A Inteligência, Dom António A Coragem e Trindade A Testemunha, o selo de verdade que um dia, quando já só ossos e pó formos, vier à tona pela pena dos que ainda não nasceram.

Antes de virdes a este Paço, atende a esta regra: Ninguém, nem o vosso santo confessor, saberá deste intento. Consinto a transmissão dos factos às vossas esposas, pois se Elas, as mães do reino, vos vão por certo acompanhar, não estria certo que fossem ao engano do turismo, quando na realidade irão ser postas perante todas as provações que ao espirito e ao esforço se possa imaginar. Tomarei o vosso juramento de silêncio estendido a Elas. Assim é justo e perfeito.

Sei que não seria sério da minha parte, não vos transmitir um ligeiro som sobre a diplomacia que por este Portugal amordaçado, ireis cumprir. O assunto é África. É de Moçambique que para já tereis de vos ocupar. Por Angola, pouco ou nada poderemos fazer por agora. O Espírito partirá de Moçambique, veremos a que portos d’alma consegue chegar. Ainda assim, outro de vós, portugueses de coração que ainda restam, partirá para São Tomé e Príncipe. Talvez daí Angola seja abençoada. Terrível comissão levará nas mãos esse outro nobre português!

Preparai-vos para penetrar no mais íntimo da Terra, no coração dos homens de África, no espirito dos guerreiros, na religião que só Deus conhece. Um a Um, Reglo após Reglo, devereis conquistar pelo Verbo um novo irmão de armas. O nosso exercito pouco mais que botas tem para este confronto que os Bretães arriscam vencer. Vencer-Nos. Se existe alguém capaz de defender o Mar Portuguez, são os Reis de África, em especial o Maior de Todos, o grande deus da Beira, o Homem-Hércules, que só em pé de guerra, tem mais soldados que nós por dentro dos inúteis quartéis nacionais: Gungunhana! A d’Ele deveis fazer um Oficial de Portugal, um Cavaleiro da Ordem de Cristo, e em troca que ele defenda até à morte o território de passará a ser soberano governador. Levais-lhe em meu nome, a Comenda da Ordem, a patente de Coronel Real, a espada do Exercito, e de todos os seus homens fareis um Peão Armilar.

Reparai que não é o sucesso da viagem que é difícil, apesar de vos ir custar décadas do respirar da vida. O difícil é não ser traído pela história, logo depois. O árduo, não será a diplomacia com os Reglos. São gente de paz, como vós, Comandante e vosso discípulo António, sabem bem melhor que Eu. O árduo será demover os medíocres que nos sucederão.

El-Rei

* NOTA: Esta carta existiu e após ser queimada foi decorada pela filha mais velha de Dom António Diniz de Ayalla, Dona Valentina Souza e Faro Diniz de Ayalla, e foi dos seus lábios que a ouvi e decalquei.
A Missão Diplomática aconteceu. Gungunhana foi feito Coronel e Cavaleiro da Ordem de Cristo, tendo jurado o acordo Régio. Trindade Coelho relatou a verdade dos factos no livro inédito “Dezoito Anos d’Áfica”, de que guardo o único exemplar impresso, autografado pelo autor. Como todos sabemos, os Medíocres traíram este desígnio africano, capturaram Gungunhana como um animal, não pela força, como a história oficial conta. Que poderia Mouzinho com quinze homens, se tentasse capturar o Reglo pela força? Vinte mil homens armados, protegiam o Cavaleiro. Foi a infâmia de um convite à metrópole que o enganou. Só chegados à Madeira, foi dada a nojenta ordem de prisão ao Reglo. Dom Carlos já nada podia, apesar de ainda ter chamado Mouzinho a tribunal Marcial. O verme suicidou-se no dia do julgamento para não enfrentar a confissão dos crimes. João Franco, o ditador, aproveitaria Mouzinho para se valer de prestigio nos momentos finais da monarquia. Construiu e lenda. José Joaquim de Almeida morreu de desgosto deitado sem ânimo numa cama. Trindade Coelho, não aguentou assistir, mais uma vez, à vitória do poder dos medíocres. Dom António voltou a África para se despedir dos Reglos que tinha conhecido, depois de visitar Gungunhana na prisão e lhe pedir desculpa em nome do Rei. Morreu em Moçambique logo à chegada. A certidão de óbito dizia: “esgotamento cardíaco galopante”. Tinha trinta e três anos, deixou a mulher viúva, grávida do seu quaró filho. Uma menina que se chamaria Mercedes. Todos os descendentes, das três famílias, mantiveram o juramento de silencio sobre esta missão africana. Foi quebrado em 1978, pela já citada filha mais velha de Dom António, Valentina, numa longa entrevista que me concedeu, ao mesmo tempo que me entregava o volume de Trindade Coelho, as fotografias tiradas na missão, e ditou de memória as cartas. Dona Valentina Souza e Faro Diniz de Ayalla, era minha avó.

Em memória de Dona Violante Lobato de Faria, esposa do Comandante José Joaquim de Almeida e Dona Júlia Nepumuceno Souza e Faro Diniz de Ayalla, esposa de Dom António.

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Sobre Frederico Mira George — «Arte»

Frederico Mira George: Escritor, Artista Plástico, Podcaster
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