Narrativa número 12 (Draft?)

Narrativa número 12 (Draft?)
Praia das Maçãs
Dia 21 de Setembro de 2013
Sábado, 11h31m
{Av. António Garcia de Castro, café}

Diário de Virginie:

Ainda tenho quarenta minutos. Com chuva, este tempo de espera custa bem mais… Porque diabo chego sempre tão cedo aos sítios? Podia aproveitar melhor o tempo. Ter ficado a ler na cama, ou, já que chego cedo, ir visitar a Livraria Otomana (talvez ainda lá vá no intervalo do lanche). Quando saio de casa pesa-me a sensação de estar atrasada e afinal… Tanta pressa, tanto correr… Se a Casa não voltasse a abrir ao publico faria alguma falta? Quem diabo se interessa por aquilo? Jazida de luxos que já nem ao sonho convoca. Ter a chave de uma Casa assim, é ter a chave d’um palheiro onde em redomas repousa estrume de cavalo e lápides de prata onde, invés do nome das bestas que cagaram, constam títulos do sucesso equestre dos cavaleiros. Se ao menos lá estivessem ossos dos cavalórios, ou as cabeças em retrato. Mas não, só mesmo o esterco e títulos de montar, elevados à condição de “pátria memória”.

O melhor deste fazer d’horas, é encontrar, subindo as escadas do castelo, a Aparição do Violoncelo com Pernas. Aquele miúdo, carregado d’um estojo negro de cabedal, bem no dobro do corpo inocente. Vê-lo na diligencia com que trepa as escadas até ao que resta da academia del-Rei Dom Pedro V.

Vou atrás do violoncelo que caminha, e esqueço o miúdo a frente do estojo. Chego a pensar que a criança não existe e que todos estes pensamentos sobre a coragem do rapaz, fazem parte daquelas seguranças racionais que nos contam historias para que o medo no confronto com as Aparições se desvaneça e nos achemos no pleno das faculdades vigilantes das pessoas normais.

Já esquecida do romantismo fácil da coragem infantil, é muito superior o que sinto. Enlaço-me nas curvas escuras do instrumento, adivinhando acordes graves, gritados, pela fricção do arco sobre o corpo de nervuras das quatro cordas. As minhas pernas tomam o ritmo das pernas do violoncelo. Adivinho a caixa de madeira… avermelhada… Será, avermelhada? O estojo que anda, esconde o corpo de pau envernizado que por nunca ir conhecer Me eleva, flanando, até ao cume da escadaria. E ele desaparece, contra-luz. Corta-luz. Pelo castelo.

Volto para trás, desço as escadas, novamente desperta, correndo, atrasada, medrosa de que os visitantes já aguardem em fila, à porta da Casa. Chego e nada! Silêncio e deserto. Como todos os dias. Ninguém visita o pardieiro! Amanhã, lá estarei. Nas escadas que vão dar ao que resta da academia del-Rei Dom Pedro V. E valerá a pena não saber aproveitar melhor o tempo, não ter ficado a ler na cama, ou, já que chego cedo, visitar a Livraria Otomana, onde talvez vá no intervalo do lanche.
Edmundo A Lúcio

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Sobre Frederico Mira George — «Arte»

Frederico Mira George: Escritor, Artista Plástico, Podcaster
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