Narrativa número 9 (Draft?)

Narrativa número 9 (Draft?)
Praia das Maçãs
Dia 15 de Setembro de 2013
Domingo, 11h50m
{Av. António Garcia de Castro}

Não existe espaço mais propício à escrita novelística do que o um quarto de hotel. Todos os escritores o necessitam. Um lavado, arrumado, depurado, quarto alugado. E dentro dele uma cómoda que permita escrever de pé, a tinta d’aparo sobre papel almaço. Uma cama de casal impecavelmente feita, uma poltrona de abas para a cabeça, cobertores, luz de candeeiros baixos e uma escrivaninha onde pousar a maquina-de-passar-a-limpo. Do guarda fatos, faria-se uma estante para dicionários, livros-mãe, uma ou outra fotografia do amor que tem.

Num hotel é possível ter tudo o que é preciso sem que as paredes contem historias habituais e, principalmente, quando se ouvem rumores, ou são os arfares do concúbito, a vozearia das domésticas ou o espirito de um ou outro desencarnado suicida clamando o auxílio das preces. Nada que se compare ao insuportável martírio do conhecido audível. O ruído de um hotel, é o espelho limpo do que seria a nossa mente asseada das lembranças fónicas de uma vida.

Augusto Carlos tenta escrever uma novela desde os nove anos de idade e nunca teve dinheiro para alugar um quarto de hotel. Encontrou nos cafés um plano de retiro, lugares onde sendo conhecido não fosse chamado para o almoço. Onde ninguém lhe perguntasse as horas mesmo no cume de uma estrofe, ou não tivesse de suportar com delicadeza as interpelações dos afazeres na cozinha. E compôs muito; pelas mesas das cafelarias onde pousava, saíram novelas de tal brilhância, que Vitor Hugo sabendo disto teria sentido embaraço do seu Miseráveis. Augusto seria um autor reconhecido pelo seu labor literário, não fosse o desastre de nunca ter passado ao papel uma fio das suas novelas. Escreveu-as, sim, talvez melhor do que Proust ou Emmanuel, mas dentro do cérebro, apenas dentro do cérebro. Como teria sido diferente se por um único par de dias, tivesse tido acesso a um quarto alugado de hotel… Tinha precisado tanto de uma cómoda onde pudesse escrever de pé a tinta d’aparo sobre papel almaço.

Edmundo A. Lúcio

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Sobre Frederico Mira George — «Arte»

Frederico Mira George: Escritor, Artista Plástico, Podcaster
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