Narrativa número 7 (Draft?)

Narrativa número 7 (Draft?)
Praia das Maçãs
Dia 12 de Setembro de 2013
Quinta-feira, 11h19m
{Café “Chitas”}

Herr Smith senta-se na mesa presidencial exibindo a preciosa câmara cheia de fotografias de raparigas adolescentes. Exibe a máquina para que todos saibam que chegou da caça e foi bem sucedido. Se vem da praia sem fotografias de raparigas semi-nuas, que fotografa enquanto conversa, delicadíssimo, com os pais delas, a câmera fica escondida na saca de cabedal negro. Se mostra a câmera… Há material. Smith passará a tarde no laboratório, revelando filmes e imprimindo os corpos imberbes das moças. Das que propositadamente faz com a candura de um velho tio, entregará um exemplar aos pais. Retratos puros e cristalinos que derretem os paizinhos e as mamãs, agradecidas por já poderem recordar aquela idade dourada das filhas. Herr Smith, é um caçador exímio, um obeso germânico de cultura infinita. Sabe-se-lá porque não pode voltar à sua Württemberg natal.

Shilla chega ao café muito cedo, senta-se na mesa Azul, coloca um livro de boa encadernação recheado de páginas em papel-seda em branco onde vai escrevendo a lápis durante toda a manhã. É o primeiro verão que vem para aqui. Nunca vai à praia e quando sai do café passa o tempo no chalé do dr. Matos, o veterinário, que alugou por três meses. Fala baixo com o empregado, ninguém lhe ouve as palavras. Dou por nós a imaginar-lhe a voz, a adivinhar o idioma em que escreve. Usa vestidos escuros com flores bordadas. Todos muito parecidos. Compridos, costurados num só pano. Trabalho manual de costura e bordado. Devem ser caros e únicos. Mistura entre quimono japonês e djalaba berbere. Pouco original, enfim. São vestidos genuínos e luxuosos mas de tão obvia escolha… Remota inspiração nas senhoras misteriosas de Agatha Christie. Atraente é a boca que não sorri quando expulsa o fumo dos gitanes sem filtro. Usa o cabelo muito curto, rente à cabeça mas é fácil perceber que já os usou longos e bem longos. Ficaram tiques próprios de quem esteve habituado a compridas cabeleiras durante toda uma vida. Pelas rugas nas mãos, deve ter uns quarenta anos. Mas quer parecer mais velha (Mais triste. Mais erudita. Mais madura. Mais cerebral). Shilla, quer parecer qualquer coisa, certamente parecer alguma coisa a alguém que não esta presente. O curioso, é que todos os dias escreve nas mesmas páginas. A lápis, preenche as primeiras vinte páginas com caligrafia larga que depois apaga. No dia seguinte lá está a rescrever.

As outras mesas são caóticas de ruído, miúdos barrados de sorvete derretido na roupa, na boca, nos cabelos. Pais a gritar em espanhol. Mães a gritar em italiano. Franceses e francesas de braços tatuados com olhos cheios de tédio. E ingleses. Como nós, vestidos com roupas quentes neste braseiro. Suando sem uma denuncia de incomodo. Horas e horas no café, em silêncio.

Edmundo A. Lúcio

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Sobre Frederico Mira George/Literatura e Rádio

Frederico Mira George: Escritor, Realizador/Autor/Locutor de Rádio, Artista Plástico
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