Narrativa número 6 (Draft?)

Narrativa número 6 (Draft?)
Dia 11 de Setembro de 2013
Quarta-feira, 11h07m
{Café “Chitas”}

Mal acaba uma, vai lavar as mãos, seca-as cuidadosamente, perfuma-as com um spray de desodorizante e vai tratar dos filhos. Entre fraldas e pós-de-talco, volta num ápice à marquise fechada das traseiras, tranca a porta e masturba-se outra vez. Alice masturba-se quatro ou cinco vezes por dia mas a sua vida não se resume a isto. Também desinfecta biberões, chuchas, vai pelos menos duas vezes ao supermercado comprar coisinhas, recebe telefonemas dos familiares, come pizas. Na televisão vê notícias de incêndios e concursos e à noite quando o marido chega, gosta de se saber em família.

Lá para a meia-noite, quando os putos já adormeceram, o marido arrebanha Alice para o quarto e fodem à americana. Foder à americana significa coito vaginal de duração inferior a sete minutos. Período em que o homem só pensa em ejacular e a mulher finge rebolar-se em redondo êxtase.

O marido de Alice acha-se portador de uma tesão admirável que não admite desperdiçar. Ela, acha-se exímia a aliviar a tesão do marido para que este nunca se possa a queixar de uma vida em vão.

É tudo muito higiénico. Alice e o marido são muito lavados. Da mesma forma que Alice se lava e desodoriza impecavelmente depois de se masturbar, o marido mal ejacula, corre para o bidé para desinfectar os genitais. E são um relógio. Entre o momento em que o marido descobre o pénis involuntariamente erecto, vai arrebanhar Alice à sala, copulam, ejacula, desinfecta as partes e volta para a sala, não passam mais de quatorze minutos. Nunca chegaram aos quinze minutos no total. Ela conta o tempo e assenta escrupulosamente na agenda. É um habito. Não tendo nada para agendar, regista os minutos daquela originalidade. Acredito que ela também se vá desinfectar. “Tratar da higiene”, é como expressa essas coisas.

Pela manhã o marido de Alice vai para o serviço e a vida continua. Pequeno-almoço, primeira masturbação na marquise fechada das traseiras, biberões, chuchas, fraldas, supermercado, televisão, telefonemas dos familiares, pizas. Já o marido chega ao serviço, pousa a lancheira e o casaco no cacifo, discretamente esconde-se no armazém da contabilidade e masturba-se. Ramiro, o marido de Alice, masturba-se quatro ou cinco vezes por dia.

Edmundo A. Lúcio

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Sobre Frederico Mira George — «Caixa Negra III»

Frederico Mira George: Escritor, Realizador/Autor/Locutor de Rádio, Artista Plástico
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