Narrativa número 5 (Draft?)

Narrativa número 5
Dia 10 de Setembro de 2013
Terça-feira, 10h09m
{Café “Chitas”}

Emmanuel mostrou-se pela primeira vez a Chico junto de um ribeiro na aldeia de Pedro Leopoldo. Chico ia todos os domingos rezar junto àquele ribeiro. Fazia-se acompanhar por um grupo de velhotes desesperados com saudades de Jesus.

Não imagino que rezas ou orações aquela gente repetia sob a orientação do jovem trabalhador das roças. O Pai Nosso não seria. Por essa altura recitava-se em latim e os velhos, mais que tudo, queriam sentir Jesus na pele, na voz, na língua. Nada de distâncias eclesiásticas. Para isso iam à missa na matriz, onde o pároco gastava o latim em vão, horas e horas em sermões que ninguém reconhecia sábios. Ali, os velhos que seguiam Chico, queriam ter o Filho de Deus na pele. Sentir-lhe o corpo, as chagas. Colocar o dedo nas feridas do Nazareno e acreditar. Como Tomé, escarafunchar as Santas Fistulas e dissipar todas as dúvidas num físico e ilimitado prazer.

Chico proporcionava-lhes isso. Aqueles seres no fim da vida, desenganados da felicidade e com os pulmões atafulhados de algodão canceroso, seguiam o rapaz até ao rio e voltavam a casa prenhes de divindade, plenos de Buda, gordos de êxtase-de-além-túmulo. Um a um, iam morrendo serenos nas camas de palha nos dormitórios das fazendas.

Imagino a chegada de Emmanuel como o dia em que Yeshua apareceu ao Baptista pedindo-lhe a benção dos banhos iniciais. Mas não foi nada assim. A coisa teve a dimensão exacta da simplicidade mineira, da pobridão tão típica do Brasil camponês. Emmanuel ainda trazia vestida a sotaina com que pisara o solo de Vera Cruz há quatrocentos anos. Uma sotaina jesuíta, costurada em Coimbra antes da partida na caravela. Nesse tempo Emmanuel chamava-se Manuel da Nóbrega, e escolhido por El-Rei de Portugal, rumou ao Brasil para fundar um estado a que desse o nome do Santo Apóstolo Paulo. E fundou! Em 1925, Emmanuel ainda a usava. E não estava nada mal conservada. Talvez ruça, desbotada. Isto já sou eu a imaginar. Lá que era de cor púrpura era. Naturalmente, Chico pensou que fosse um Bispo vindo de S. Paulo ou do Rio, perdido pelo campo. Ou algum Arcipreste ali deslocado para dar posse a um novo pároco. Era costume as altas individualidades Romanas, deslocadas em serviço terras dentro, esconderem-se dos populares com medo das doenças e dos pedidos. Iam pastar ao campo e só apareciam na igreja à hora da função. Mas não. Emmanuel identificou-se como “a voz que o não deixava só”. Chico sabia bem o que isso era. Depois da morte da mãe ele tinha sido “cuidado” por uma voz conselheira que o salvava das tristes traições dos coronéis. Ficaram ali, conversando. Os camponeses de beiços caídos, olhavam embascados: “Olha o Chico à conversa com um Bispo!”. Emmanuel conversou com Chico e Chico conversou com Emmanuel durante horas e horas. Ou talvez só tivessem sido uns segundos que Chico tomou por horas de alívio.

À despedida, Emmanuel pediu-lhe três votos: Disciplina, disciplina e disciplina. E Chico jurou. Não posso imaginar a que três disciplinas Emmanuel se referia. Mas alguma coisa resultou num milagre: o pequeno e enfermo camponês de Pedro Leopoldo, Francisco Cândido Xavier, tornou-se irremediavelmente lúcido!

Edmundo A. Lúcio

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Sobre Frederico Mira George/Literatura e Rádio

Frederico Mira George: Escritor, Realizador/Autor/Locutor de Rádio, Artista Plástico
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