Narrativa número 2 (Draft?)

Narrativa número 2 (Draft?)
Praia das Maçãs
Dia 7 de Setembro de 2013
Sábado, 10h53m
{Café “Chitas”}

Todas as manhãs, Mercedes entrava para o quarto de banho com medo. Atormentava-a ter de se despir e nua enfrentar aqueles três espelhos gigantes que denunciavam tudo, toda a gordura, a pele em rosca nas pernas, o pêlo muito pretos nas costas e barriga. E bem pior, o nariz. Nada a envergonhava mais do que o nariz. A herança do pai que não tinha conhecido e que lhe fazia do rosto uma máscara do carnaval suíço.

Na realidade Mercedes não sabia se era tão grotesca assim. Os espelhos daquele quarto de banho mostravam-na assim. Mas só aqueles três espelhos, naquele, especifico quarto de banho (o único da casa em que estava a autorizada a lavar-se). Via-se muito diferente no espelho do quarto de dormir, ou nos vidros da cristaleira da casa de jantar e mesmo na rua, nas montras, ou no pequeno espelho de carteira onde retocava o pó-de-arroz.

Chegou a pensar que aquele tormento era um vingança subtil da irmã mais velha em resposta à traição que Mercedes tinha cometido logo nos primeiros anos do casamento da irmã. Odiavam-se mas conviviam num pacto de dignidade familiar, assinado a sangue e suor, por razões de que agora não quero falar. Pensou nisto, mas era tão absurdo… Podia lá a irmã possuir tais magias. Com o tempo, Mercedes já não pensava em causas, assumia o tormento da higiene matinal como uma Cruz que se carrega com a resignação da fé. A dúvida é que permanecia impossível de dissipar: a razão estava nos espelhos do quarto de banho ou em todos os outros reflexos?…

As criadas tinham-se apercebido disto. (As criadas… já ninguém sabe o que é uma criada, e como tinham o cérebro distorcido de crueldade, vitimas que tinham sido de humilhações sucessivas desde que em miúdas tinha, vindo servir para a cidade). Podiam lá perder a oportunidade de espreitar uma das patroas nos momentos em que esta se contorcia com nojo de si mesma. Espiavam pela enorme fechadura da porta, aguardavam babando o momento mais grotesco daquele show burlesco. A altura em que Mercedes se sentava no bidé agoniada de repulsa e com a mão direita enfiada numa luva de esponja, se lavava entre as pernas, com um líquido verde, fedendo a éter. A cada vómito contido da patroa, as vacas riam, faziam gestos obscenos, coçavam as virilhas, ficavam até excitadas por baixo das fardinhas francesas de renda.

Curiosamente, Mercedes nunca chorava. Acabado o suplício higiénico, abria a porta demoradamente (é claro que sabia das sopeiras), e mal punha o pé no corredor corria para o quarto de dormir, deixava cair as toalhas de linho cru, ajoelhava-se diante do espelho do guarda fatos, e num alívio religioso, proferia uma prece à imagem redentora que da sua nudez aquele espelho revelava. Chegava a adormecer de cansaço no chão. Ao meio-dia em ponto, uma das criadas que a tinha espreitado batia com cuidado à porta: – Minha Senhora, o almoço está servido.

Edmundo A. Lúcio

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Sobre Frederico Mira George/Literatura e Rádio

Frederico Mira George: Escritor, Realizador/Autor/Locutor de Rádio, Artista Plástico
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